Quando do nascimento de Jesus, surgiu no céu uma estrela muito brilhante. Então os três Reis Magos do Oriente, que estudavam as estrelas - Melchior, Gaspar e Baltazar-, perceberam que essa estrela luminosa, como jamais tinham visto, trazia uma mensagem: a do nascimento do Rei dos Judeus. E, acompanhando a trajetória que a estrela indicava, chegaram a Belém, após 13 dias de viagem.
Encontraram o menino e sua mãe, fizeram atos de adoração e ofertaram seus presentes, ouro, significando riqueza, incenso, significando sabedoria e mirra, indicando o poder que a criança teria sobre o mundo. Esse acontecimento é comemorado no dia 6 de janeiro, como Dia de Reis. E, nesse dia uma festa, relembra essa passagem da história cristã.
A Folia de Reis é uma festa de caráter religioso, que comemora o nascimento de Jesus e a viagem dos três Reis, para conhecê-lo. Essa festa foi trazida da Europa, para o Brasil pelos Jesuítas portugueses. Aqui chegando, essa festa misturou-se com nossa cultura e tornou-se mais uma de nossas manifestações folclóricas.
Os cantores de Reis imitam os Reis Magos (Baltazar, Belchior e Gaspar), que viajam guiados pela estrela de Belém para dar boas-vindas ao Menino Jesus. As visitas muitas vezes atravessam a noite até o amanhecer.
Esse simbolismo tem a sua importância: os poderosos devem curvar-se diante dos humildes.
Não conhecemos a data certa que o Terno de Reis chegou ao Rio Grande do Sul, mas sabemos que foi uma tradição trazida pelos imigrantes açorianos.
Em Porto Alegre, as manifestações ainda ocorrem nos bairros, Cidade Baixa e Belém Velho, mas sempre foram uma manifestação essencialmente agro-pastoril, vivenciada na sua grande maioria pela gente simples do interior. Em Rio Pardo e Viamão e Osório, por exemplo, cidades de procedência luso-açoriana, era tradição de famílias inteiras, que participarem dos Rezes ou Bandos de Reis, como também eram conhecidas as Folia de Reis. Entretanto, foram nas áreas rurais e agrícolas que se mantiveram a admiração e o culto desse tradicional costume popular.
Os Ternos de Reis são grupos musicais que anunciam, de casa em casa, de rancho em rancho, o nascimento do menino Jesus. Mas o objetivo da visita pode variar de um terno para outro: alguns visam unicamente louvar o acontecimento, outros visam uma retribuição ao desgaste das cantorias, através dos comes e bebes e, por fim existem aqueles que por suas necessidades materiais, saem de porta em porta, “pedindo aos reis” na certeza de conseguir alguma retribuição.
O sentido fundamental do Terno é o de anunciar ao povo, o nascimento de Jesus, por isso inicia a caminhada, no dia 25 de dezembro e vai, até o dia 06 de janeiro, quando é celebrada a Festa de Reis.
Ao chegarem nas casas, o Terno canta, na porta, pedindo licença ao dono, para entrar. Pedem donativos como comida e bebida, os quais são colocados dentro do saco que carregam.
“Senhor dono d’esta casa,
os Reis Magos aqui estão;
pra receber qualquer oferta
de tão devoto cristão”.
Dentro da casa, tocam e cantam modas populares. O dono da casa, em mesa posta, passa a oferecer ao Terno, queijos, lingüiças, morcilhas, carnes, bolos, coalhadas, roscas grandes enfeitadas e o que mais tenha preparado. Alguns oferecem ceias com frutas ou um café reforçado
O grupo de cantores anda visitando diversas casas, contando a história do Natal. Conforme a tradição, os cantores chegam à porta das casas, já tarde da noite, quando as luzes já se apagaram e iniciam o cântico até que o dono da casa acenda a luz e os receba. O mestre do Terno, que também é o diretor do grupo, é um bom repentista e um bom conhecedor da história do nascimento de Jesus. O mestre inicia o canto em primeira voz, acompanhado de seu ajudante, este em segunda voz. O verso, então é repetido pelo contramestre e seu ajudante, também em primeira e segunda voz, respectivamente. Então o terno de Reis inicia a cantoria diante da casa. Se os donos da casa concordam com o canto, abrem a porta e convidam o mestre e seus cantores, para entrar. Dentro da casa o Terno canta toda a história do nascimento e da chegada dos reis. Muitas vezes, nas grandes fazendas os cantadores, logos após os cantos do Terno, iniciavam cantos de origem popular, o que muitas vezes acabava virando num baile.
De acordo com a tradição, as famílias, depois das quadrinhas, costumam oferecer aos cantores os comes e bebes. O Terno, após esse período se despedem da casa e continuava seu caminho em direção a outras residências.
Nas casas, onde não abrem a porta para receberem os reis, estes cantam um verso desaforado ao dono da casa, nos seguintes termos:
“E o verso que cantamos;
tornamos a cantar;
este barba de farelo/;
não tem nada pra nos dar”.
E vão embora para recomeçar a cantoria na casa do próximo morador.
Nos dias atuais esta tradição está em vias de desaparecimento. A vida moderna e as festas natalinas com seus enfeites cada vez mais elaborados fazem com que essas manifestações fiquem mais raras e circunscritas aos moradores do interior do Brasil e do Rio Grande do Sul.
Em alguns rincões de nosso estado, ainda ocorre essa festa popular. Mas o certo é que as influências externas contribuemm para o quase total desaparecimento dos Ternos.
No geral os Ternos de Reis, contam com oito pessoas: o mestre ou guia, o ajudante de mestre, o contramestre, o ajudante de contramestre, o tipe, o tambor, o triangulo e a rabeca. O tipe é uma criança que se encarrega de cantar as fermatas, características do segundo e do quarto verso, de cada estrofe.
Os ternos de reis eram e ainda são, compostos por pessoas das mais variadas idades, geralmente formados por homens, sendo poucos os que tinham mulheres entre seus figurantes. A visita era feita de surpresa e os moradores percebiam a visita dos reis quando começavam a ouvi-los cantarem no pátio da casa ou quando cantavam em casas vizinhas. O percurso era variável, sendo que uma noite visitavam uma região, na outra noite iam para outra e assim conseguiam visitar todas as casas da vila, povoado ou capela onde residiam.
Os instrumentos musicais, considerados tradicionais, no terno, são a viola, a rabeca ou rebeca, a gaita, o violão, o tambor ou caixa e o triângulo. Era comum, antigamente, a parceria da viola com a rabeca, acrescida do tambor ou triângulo. Na falta desse, era também usado um estribo. Hoje, a gaita, (acordeon) toma conta da parte musical, fazendo-se acompanhar do violão, e não raro do pandeiro, do chocalho e do cavaquinho .
Figuras indispensáveis eram os três reis magos: Gaspar, Belchior e Baltazar, vestindo roupas típicas dos seus lugares, que carregavam potes, representando o ouro, incenso e mira, presentes levados ao menino na gruta de Belém. Segundo a tradição, Belchior era de cor preta e os demais brancos. Para as famílias era uma demonstração de que o Deus menino os estava visitando, e para as crianças era um momento de grande curiosidade, por verem os reis em trajes tão diferentes daquele que as pessoas habitualmente vestiam, e também por tentar descobrir quem eram as pessoas que ali estavam, vestidas de reis magos, tarefa esta dificultada pela pouca claridade emanada dos lampiões a petróleo.
As estrofes dos Ternos de Reis gaúchos são quadrinhas que narram episódios referentes ao nascimento de Jesus, classificadas como religiosas e profanas. As primeiras, mantém bem vivo o motivo cristão da comemoração, enquanto as profanas fogem ao tema do período natalino. Os versos compreendem vários ciclos: antes do natal; de 25 a 1º do ano; e de 1º de janeiro ao dia de Reis.
A característica principal do reisado está no uso de muitos adereços, trajes com cores quentes e chapéus ricamente enfeitados com fitas coloridas e espelhinhos.
Algumas quadrinhas dos ternos:
CHEGADA:
Agora mesmo chegamos
Na beira de seu terreiro
Para tocar e cantar
Licença peço primeiro
Meu senhor dono da casa
Acordai se estais sonhando
Venha ver os Três Reis Magos,
No seu rancho estão chegando.
ENTRADA:
Porta aberta, luz acesa
Sinal de muita alegria
Entra eu, entra meu terno
Entra toda a companhia.
LOUVAÇÃO
Meu senhor dono da casa
Escute que está bem visto
Nós vimos trazer notícias
Do nascimento de Cristo.
Nós andamos a caminhar
Num assunto tão profundo
Jesus Cristo está nascido
Para dar exemplo ao mundo.
A estrela que nos guia
É que dá o esplendor.
Jesus Cristo está nascido
Filho de Nosso Senhor.
Melchior, Baltazar, Gaspar
Trazendo ouro, mirra, incenso
Ao rei que vão adorar
Porque tem prestígio imenso.
AGRADECIMENTO
Obrigado pela oferta
Dada tão alegremente
Jesus Cristo lhe ajude
E seus Reis lhe acrescente.
DESPEDIDAS
Vamos dar a despedida
Como deu Cristo em Belém
Este Terno se despede
Até o Ano que vem.
Avante, cavaleiro mirim!
Em frente, veterano peão!
Lado a Lado prenda e prendinha.
Todos juntos dando a mão.
Avante , seguindo os avós!
Em frente seguindo os piás
Coisa linda é se ver gerações
Convivendo em santa paz.
E dá uma gana de sair dançando,
Ou gritando com força juvenil:
“Viva a Tradição Gaúcha
- dos campeiros do Brasil!”